Perto de completar 21 anos vivendo na Holanda, tem coisas com as quais eu ainda me surpreendo de alguma forma.
Um dos pontos que me faz resiliente é o meu autoconhecimento: o que eu aceito, o que eu tolero e o que eu aguento.
Talvez esse post fique estranho, talvez alguém me julgue mas eu vou contar a situção mesmo assim.
Foi a primeira vez que uma senhora holandesa me convidou para ir na casa dela para um café.
Sinceramente, não me empolguei muito. É uma pessoa pouco comunicativa, faz pouco contato visual, não sorri e faz o estilo: você pergunta, ela responde. E ela entra no modus stand-by. E até me surpreendeu o fato de ela me convidar para ir na casa dela. Talvez ela tenha um espectro, o que é muito comum entre holandeses.
Bom, por educação aceitei o convite. Nós estamos no mesmo grupo de ginástica. Ela já passou dos seus 70 anos.
Ela é sozinha, nunca se casou - eu também não perguntei diretamente sobre isso, mas assumo que é isso mesmo. Não tem filhos. Fisicamente ela é bem alta, forte e não aparenta a idade que tem. Parece mais jovem até, mas observando o seu semblante mais atentamente, percebe-se que é uma pessoa de uma idade mais avançada.
Na entrada, pendurei a minha jaqueta. Ela pendurou a dela e tirou os sapatos e colocou as pantufas. E disse sugerindo que eu deveria fazer o mesmo, porém teria que ficar apenas com as meias, afinal não tinha pantufas para mim.
Gente, eu olhei e o chão era puro pó. Pensei...ahhh as minha meias limpinhas...mas pelo menos é pó de dentro de casa. Me consolei.
Ela foi passar o café. Trouxe um porta copos com a borda de vidro todo lascado e o meio dele era um plástico amarelo, todo encardido. Fiquei tão indignada com aquilo. Como que você coloca isso para uma visita? Depois veio com uma lata de bolachinhas velhas e insistiu para eu pegar, mesmo que dizendo que sou intolerante ao glúten. Para o meu azar, eram sem glúten. Peguei uma e mordi. Murchas, borrachudas...sorte que eram minúsculas. Pelo menos o café era fresco.
O sofá todo manchado. Pareciam manchas de café e quando olhei, a minha calça estava cheia de restos de cabelo branco. Não sei se ela picotou o próprio cabelo em cima do sofá e não limpou. Aquilo me deu agonia.
Os braços das poltronas, tomados por uma crosta de pó. Em cima dos móveis, mais pó. O parapeito da janela que tem a cor clara, estava todo manchado, com resto de terra, água respingada, sujo e com pó.
E ela começou a conversa como se estivesse lendo o curriculum dela para uma entrevistadora.
E eu a interrompi algumas vezes para sair do transe: a senhora tem familia aqui perto? Parentes nas cidade? Amigos? O que a senhora estudou? No que trabalhou? Eu quero escutar uma história de vida.
Ela só foi me falando dos "projetos" nos quais ela está envolvida agora, do café semanal com o vizinho, da assinatura de trem pra ir pra cima e pra baixo, da assinatura do cinema pra ver todos os filmes sem limite, do grupo de leitura, dos grupos de caminhada...
E eu pensando, lógico que a casa está perdida no pó, ela não tem tempo, não para em casa. E, pelo visto, não tem a mínima intenção de limpar.
Agora o mais assustador é que com essa vida toda atribulada, cheia de encontros e atividades, ela disse ter NINGUÉM mais próximo. Ou seja, contatos sem vínculo. E isso é assustador né...porque ela é uma holandesa, que fala holandês e que viveu aqui uma vida inteira e está nesse pé, que dirá eu! hahaha
E a única pergunta que ela me fez foi se o meu marido era holandês. Eu respondi. Acabou ali. E, aproveitando o silêncio, eu disse que precisava voltar para casa. Me levantei, agradeci o café e saí rapidinho. Saí tão tonta que me custou uns segundos para me localizar e achar a direçao pra minha casa.
E eu ainda quero retribuir o café, afinal não me custa nada mas não tenho expectativas de que algo se desenvolva.
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