A "Mudança para a Holanda" já aconteceu há alguns anos.
Hoje já tenho uma certa rotina mas, ainda, com algumas coisas novas... assim é a vida.

Muitas coisas aconteceram... nascimentos, amizades novas e fortes, outras frágeis e desfeitas.
E vai-se vivendo e aprendendo, ou não...afinal quem é perfeito? Eu tento...
E a vida ainda segue, meus caros, no "Vivendo aqui na Holanda"...
Seja bem vindo(a)!

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Ainda me surpreendo

Perto de completar 21 anos vivendo na Holanda, tem coisas com as quais eu ainda me surpreendo de alguma forma.

Um dos pontos que me faz resiliente é o meu autoconhecimento: o que eu aceito, o que eu tolero e o que eu aguento.

Talvez esse post fique estranho, talvez alguém me julgue mas eu vou contar a situção mesmo assim.

Foi a primeira vez que uma senhora holandesa me convidou para ir na casa dela para um café.

Sinceramente, não me empolguei muito. É uma pessoa pouco comunicativa, faz pouco contato visual, não sorri e faz o estilo: você pergunta, ela responde. E ela entra no modus stand-by. E até me surpreendeu o fato de ela me convidar para ir na casa dela. Talvez ela tenha um espectro, o que é muito comum entre holandeses.

Bom, por educação aceitei o convite. Nós estamos no mesmo grupo de ginástica. Ela já passou dos seus 70 anos. 

Ela é sozinha, nunca se casou - eu também não perguntei diretamente sobre isso, mas assumo que é isso mesmo. Não tem filhos. Fisicamente ela é bem alta, forte e não aparenta a idade que tem. Parece mais jovem até, mas observando o seu semblante mais atentamente, percebe-se que é uma pessoa de uma idade mais avançada.

Na entrada, pendurei a minha jaqueta. Ela pendurou a dela e tirou os sapatos e colocou as pantufas. E disse sugerindo que eu deveria fazer o mesmo, porém teria que ficar apenas com as meias, afinal não tinha pantufas para mim.

Gente, eu olhei e o chão era puro pó. Pensei...ahhh as minha meias limpinhas...mas pelo menos é pó de dentro de casa. Me consolei.

Ela foi passar o café. Trouxe um porta copos com a borda de vidro todo lascado e o meio dele era um plástico amarelo, todo encardido. Fiquei tão indignada com aquilo. Como que você coloca isso para uma visita? Depois veio com uma lata de bolachinhas velhas e insistiu para eu pegar, mesmo que dizendo que sou intolerante ao glúten. Para o meu azar, eram sem glúten. Peguei uma e mordi. Murchas, borrachudas...sorte que eram minúsculas. Pelo menos o café era fresco.

O sofá todo manchado. Pareciam manchas de café e quando olhei, a minha calça estava cheia de restos de cabelo branco. Não sei se ela picotou o próprio cabelo em cima do sofá e não limpou. Aquilo me deu agonia.

Os braços das poltronas, tomados por uma crosta de pó. Em cima dos móveis, mais pó. O parapeito da janela que tem a cor clara, estava todo manchado, com resto de terra, água respingada, sujo e com pó.

E ela começou a conversa como se estivesse lendo o curriculum dela para uma entrevistadora. 

E eu a interrompi algumas vezes para sair do transe: a senhora tem familia aqui perto? Parentes nas cidade? Amigos? O que a senhora estudou? No que trabalhou? Eu quero escutar uma história de vida.

Ela só foi me falando dos "projetos" nos quais ela está envolvida agora, do café semanal com o vizinho, da assinatura de trem pra ir pra cima e pra baixo, da assinatura do cinema pra ver todos os filmes sem limite, do grupo de leitura, dos grupos de caminhada...

E eu pensando, lógico que a casa está perdida no pó, ela não tem tempo, não para em casa. E, pelo visto, não tem a mínima intenção de limpar.

Agora o mais assustador é que com essa vida toda atribulada, cheia de encontros e atividades, ela disse ter NINGUÉM mais próximo. Ou seja, contatos sem vínculo. E isso é assustador né...porque ela é uma holandesa, que fala holandês e que viveu aqui uma vida inteira e está nesse pé, que dirá eu! hahaha

E a única pergunta que ela me fez foi se o meu marido era holandês. Eu respondi. Acabou ali. E, aproveitando o silêncio, eu disse que precisava voltar para casa. Me levantei, agradeci o café e saí rapidinho. Saí tão tonta que me custou uns segundos para me localizar e achar a direçao pra minha casa.

E eu ainda quero retribuir o café, afinal não me custa nada mas não tenho expectativas de que algo se desenvolva.

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